Agovernismo

O esfacelamento de instituições democráticas, em certas circunstâncias, não é contraditório ao capitalismo, pois quanto mais a democracia deixa de ser levada a sério (algo que é inevitável), mais ela passa a ter um sentido totalitário de grau muito mais elevado (a democracia é “salva” com o restabelecimento da ordem a todo custo). Uma coisa é exercer a crítica das instituições democráticas que, por estarem a serviço da ordem dominante, deixam, de fato, de servirem às necessidades mais urgentes da população. Outra coisa é provocar a sua degradação acelerada que, de acordo com as exigências do capital (a “vontade de petróleo”, por exemplo), torna-se extremamente interessante (a aliança com a extrema-direita, em determinados momentos, não deixa de ser peça importante para o capitalismo). Para nós, é inegável a importância do avanço de políticas de inclusão social, de combate à fome, tal como ocorreu no Brasil nos últimos anos, o que lhe permitiu sair do Mapa Mundial da Fome em 2014. Entretanto, essas políticas tratam-se, sobretudo, de uma inclusão para o consumismo, sem ir além do primeiro passo, isto é, sem romper com a vontade de ter prazeres como sentido da existência. Para que essa ruptura se efetue, é necessário um segundo passo que é determinante, marcado por uma transmutação das políticas de inclusão por meio de uma política de educação libertadora (com muita arte, filosofia, ciência), promovida por movimentos sociais que se servem dos benefícios da inclusão social para, estrategicamente, estimular o pensamento crítico e criador que permite o surgimento de modos de existência que vão na contramão da homogeneização do consumismo (em síntese, este é o foco do que chamamos de democracia ativa). É em razão disso que, em um cenário onde existe o crescimento da extrema-direita, o apoio a um governo que promoveu condições de existência mais favoráveis a uma parte considerável da população não pode ser interpretado a partir de uma visão binária dos fatos, do tipo pró ou contra. O tecido social é complexo demais e, por isso, devemos multiplicar a análise dos fatos e distinguir as forças sociais que estão em relação, tendo como critério políticas que favorecem a autonomia, a autogestão e, no final das contas, o despertar das singularidades criadoras. A partir deste critério (e o que ele pode), entendemos que quando o apoio a um governo que promove a inclusão social é feito de modo dogmático, isso não deixa de ser reacionário, pois não se rompe com a existência consumista – pelo contrário, ela continua a ser estimulada para os incluídos. Para nós, este apoio é do tipo governismo. Todavia, quando o apoio é do tipo agovernismo, abre-se, ao menos, condições mais concretas para operarmos a ruptura com o consumismo – trata-se, portanto, de uma estratégia para que não sejam destruídos direitos da vida que foram arduamente conquistados. Por outro lado, quando não se apoia um governo assim e se deseja que surja outro do jeito que for, mesmo que seja por meio do esfacelamento das instituições democráticas, é evidente que também não há ruptura com a vontade excessiva de ter prazeres – o segundo passo também não é favorecido, ao contrário, retira-se o primeiro passo e a distância que separa os incluídos dos excluídos aumenta consideravelmente. A ideia de que “pior do que está não fica”, efeito do próprio circo democrático, torna-se mais um combustível para o “vale tudo pelo poder” que é promovido por aqueles que se servem das aparentes contradições da democracia representativa (a corrupção, o agronegócio, as privatizações, a destruição ambiental, a violência nas metrópoles), para fisgar os insatisfeitos de todo tipo... Embora estas distinções sejam, até certo ponto, muito básicas, pensamos que sejam suficientes para começarmos a superar o modo binário de interpretar os fatos sociais (pois o binarismo é ferramenta de poder, reproduz o ódio a quem não pensa e vive do mesmo modo). Portanto, não se trata de escolher simplesmente “o menor dos males” ou, então, “quanto mais repressão, melhor, porque assim o povo acorda”, pois embora haja diversos graus de violência estatal, ainda assim as criações podem surgir em ambientes mais favoráveis aos movimentos de autonomia que, evidentemente, sempre irão incomodar o Estado, seja a forma que lhe for dominante (democrático, totalitário, socialista). O Estado, por ser de essência parasitária, deve ser sempre incomodado com criações, e cada vez mais, porque o que está em jogo é o mundo em que vivemos, é o mundo em que as próximas gerações irão viver, pois a humanidade não terá direito a um futuro se continuar a se distrair de si mesma por meio do consumo excessivo de bens em busca de prazeres.

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