Continuamento

A noção de finalidade é inerente à nossa consciência pragmática: acreditamos que viemos à existência por finalidade, que agimos por finalidade, que o universo existe por finalidade. A linguagem, sem dúvida, corrobora para nos agarrarmos tenazmente à ficção das causas finais das coisas. Um ideal introjetado em nós pela organização social (família, escola, mídia) nos impele a abraçar, a todo custo, as vias legítimas (os “bons” caminhos) que nos levam a realizá-lo. Se estudamos é para chegarmos a um ideal, se trabalhamos, é também para chegarmos a um ideal, se existimos, é claro que só pode ser para chegarmos a um ideal. Portanto, nossa consciência passa a se entupir, desde os nossos primeiros anos de existência, com determinadas maneiras de viver que são consideradas as melhores pela consciência pragmática. Nascemos, temos consciência de um corpo, de uma identidade, falam conosco porque nos reconhecem, falamos com os outros porque também os reconhecemos, buscamos prolongar nossa existência com o mínimo de incômodo possível, geralmente protegidos pela instituição na qual servimos, nos esforçamos pela manutenção de uma ordem que, nos dizem, será para o bem de todos e, por isso, queremos que nossos filhos deem continuidade aos valores que farão com que a humanidade realize, enfim, o ideal de felicidade. Mas enquanto esperamos a realização de um ideal, seguimos nos alimentando, dormindo, conversando, respirando e podemos, até, nos cansar de tanto esperar. Então, talvez a nossa consciência não esteja destinada a seguir um ideal introjetado em nós; talvez ela não seja um rígido produto da natureza, com a função de nos comunicarmos e, assim, prolongarmos ao máximo a nossa existência orgânica. Um outro uso da consciência exige uma direção contrária aos nossos hábitos idealistas – um uso com direções sensíveis. A nossa consciência pragmática está muito, muito à vontade e, exatamente por isso, tornou-se o nosso maior perigo, pois a humanidade, entupida por ideais, está desprezando o seu próprio futuro na Terra. A humanidade terá que sentir, de modo urgente, a pressão crescente de uma outra consciência que, assim como no passado, ainda é tímida (talvez atualmente seja ainda mais tímida do que em outras épocas), pois ela desperta, ocasionalmente, em pouquíssimas existências. Este outro uso da consciência estará a serviço de um outro ideal que realmente é vivido, que impele a humanidade a se tornar forte e ter direito a um futuro. Chamamos este outro ideal de continuamento. A consciência continuante não espera a realização do velho ideal, não prevê, não se cansa, não pertence a uma identidade que é reconhecida, não quer seguir os “bons” caminhos, mas sim levar adiante seus pensamentos que lhe vieram como raios imprevisíveis, caóticos. “Eu iria escrever isto, fazer aquilo, mas agora não me interessa mais, sinto uma urgência que veio à minha consciência. Ela, a urgência, me fez abandonar velhas finalidades...”. A consciência continuante redime a consciência pragmática da servidão do ideal a ser realizado a todo custo: a partir dela, o ideal é algo para não ser levado a sério – a finalidade torna-se um importante adorno acrescentado à nossa existência... e nada mais que isso.

Comentários

Anônimo disse…
as velhas noçoes do util. mas essa consciencia continuante, no revelar dos seculos, na se tornaria aos poucos, tenderia a`uma consciencia pragmatica? entendo porkue faço, mas realmente nao sei a origem, nao posso levar vantagem sobre as velhas noçoes da ideia (ideal), as velhas noçoes do util? kue nao sao noçoes paralelas. negar a origem nao seria viver de superficie?