Ocupação

Certas mudanças são essenciais pela lógica capitalista: protestos como “contra a corrupção” e “um só grito, uma só força!”, em conjunto, agradam tanto a simples insatisfeitos quanto a neonazistas; até um determinado uso do conceito de multidão colabora para levar adiante as mudanças essenciais que, ao contrário do que pode parecer, não são, de modo algum, contraditórias à dinâmica do capitalismo. Com efeito, surgem novos mercados, novas possibilidades de acumulação se abrem e, desse modo, o capitalismo mantém a sua própria morte afastada. Mas, até quando?... Portanto, a noção de “revolução” de certos movimentos de esquerda podem colaborar, tendo consciência ou não, para a conservação do capitalismo, porque simplesmente ignoram que o desejo da “multidão” pode ser facilmente direcionado para atender os interesses de pouquíssimas nações que são, evidentemente, as de maior desenvolvimento econômico. Liberar o desejo por “mudança” e insuflar, através de um bombardeio diário de significações, que o povo de um país não pode perder a chance de, finalmente, se vingar contra os políticos corruptos (de modo que, mais uma vez, os empresários deixam de ser alvo dos protestos), para, finalmente, “mudar o país para melhor”, é uma ferramenta, hoje em dia, cada vez mais indispensável em razão da capacidade de penetração de narrativas reacionárias por meio das novas tecnologias (que reforçam, de acordo com o uso, aquilo que a grande mídia torna patente todos os dias). Como a crise da democracia representativa não pode ser mais disfarçada, ela, a democracia, passa a ter, então, um outro sentido que é muito, muito perigoso. Este raciocínio pode ser expresso assim: “Por que esperar as próximas eleições para, finalmente, tirar do poder um governo corrupto? Queremos que fale a voz das ruas, que expressa a vontade do povo!”. Impulsionado pelos formadores de opinião, o caos nas ruas se instala, o que legitima a saída do governante, pois ele demonstrou ser incapaz de restaurar a ordem. Outro político assume imediatamente o seu lugar, para atender à “vontade do povo”. Então, dizem, a mudança ocorreu “democraticamente”. Porém, o novo governante terá que atender, com absoluta prioridade, os interesses econômicos daqueles que foram, de fato, determinantes para que ele assumisse o poder... Contra este atual cenário político global, entendemos a democracia ativa como subversão política, “onde os políticos estariam realmente a serviço das exigências mais urgentes da população” (conforme já dissemos em outro lugar). Ocupar as ruas para exigir um transporte público de qualidade, assim como ocupar um espaço para dançar, para ensinar, para morar, intervindo em diversos pontos da cidade, para até, em certos casos, fazer-se ouvir pelos governantes, incomodando-os (sejam eles de esquerda ou de direita), para, finalmente, favorecer a vida humana: isto nos parece ser uma vontade genuína por mudança, entendendo a mudança, aqui, como algo que ocorre pontualmente e gradualmente, fragmentária, mas sempre em ato, não como esperança, não como vingança, não como tutela, não para se chegar a um estado final de sociedade. “Está ocioso, merece ocupação!” – para isso, autogestão e autonomia... As ocupações como apenas mais um signo de democracia ativa, como fragmentações subversivas que são favoráveis à energia vital que, em nós, quer pensar e criar. Isto é muito diferente do desejo fascista por unificação, com todos juntos, de mãos dadas, pelo mesmo objetivo de que “o país mude!”, tentando expulsar movimentos fragmentados, singulares, autônomos, de multidão (ou de “vândalos”, na linguagem da grande mídia), que sempre ameaçaram o Estado: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. Isto quer dizer: “Todos unidos para que a minha vida mude!”. Isto é egoísta demais, indolente demais, passivo demais... Por isso, perguntamos: é para se acreditar nesta “revolução”?

Comentários

Anônimo disse…
Que maravilha que vc voltou para o blog Adoro esse cantinho