Estado

Existe algo que envenena o macromundo, que nos impede de recebermos, sem julgamentos, os micromundos que nos salvam da crescente vulgarização humana. No macromundo nos deparamos com a terrível forma-Estado, com sua burocracia, com sua rigidez, com sua frieza, com seu julgamento, com sua violência sobre a vida – estes são apenas alguns signos da morte das relações afetivas operadas por tudo aquilo que reproduz a organização da existência humana para enfraquecê-la. Por meio da reprodução da forma-Estado, isto é, do Estado em nós mesmos (o homem-Estado), o ser humano se torna apenas um pedaço de matéria, cuja força física e intelectual servem para que seja extraído algum lucro – e para isso é necessário que ele seja continuamente enganado ou, para falar de outro modo, para que ele deseje ser enganado, pois é da essência do Estado a necessidade de enganar para parasitar a existência livre... Ao reproduzir a forma-Estado, as instituições de ensino consideram os alunos apenas como consumidores de diplomas, onde os professores  costumam  funcionar como ferramentas de disseminação de um conhecimento que serve para manter a ordem social. Desse modo, é formado um sujeito que se defende contra a realidade dos micromundos ao agarrar-se a um conhecimento utilitário que se pretende aplicá-lo de modo eficaz – eis uma luta que, desde o início, está perdida, porque, apesar de todos os esforços para contê-la, a vida segue adiante... Não nos enganemos: para aquele que está enfraquecido e entristecido, existe a demanda pelo exercício de um poder que é autorizado socialmente. Surge, então, mais um “pavão” instruído... O corpo humano é, para os que estão capturados pela organização do Estado, sempre um problema que não pode ser ignorado, pois ele deseja os micromundos – e os seus gritos são indicações da violência que esmaga este desejo.  Porém, o corpo deixa de ser um problema quando sentimos e compreendemos que “vivemos sempre de maneira contínua, sempre de modo diferente”: rompemos, então, com a dissociação utilitária entre corpo humano e corpo inumano e afirmamos a continuidade da vida em nós. Em suma: é impossível sermos generosos e criarmos relações afetivas quando nos limitamos ao cativeiro do macromundo, onde a forma-Estado impera. Refém dele, experimenta-se um esfriamento das relações humanas, surge até um questionamento se a existência mesma, na sua totalidade, está destinada a esse esfriamento...  Mesquinhez, inveja, busca irrefreável por dinheiro, necessidade de enganar outros seres humanos – diante deste cenário, é inevitável sentirmos a “vergonha de ser um homem”, como já dizia Primo Levi. 

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