Ódio

O poder precisa que os homens estejam tristes para ser desejado: esta é uma afirmação que sempre fez sentido e que continuará a fazer sentido na história humana. Há uma produção social da tristeza que concerne aos modos de habitar, de trabalhar, de estudar, de se deslocar, de se divertir. “Entendemos que a doença do homem no mundo atual não está separada do seu meio social, das suas maneiras de desejar, de produzir corpo ou, numa tentativa de expressarmos isso mais claramente, da sua ignorância sobre a importância do corpo – das relações do corpo – para o pensamento... o homem contemporâneo sequer quer pensar porque vive cansado, seu corpo está esgotado pelas instituições. Corpo e mente estafados – eis um retrato do homem contemporâneo”. Quando dissemos isto em outro texto queríamos destacar que a organização utilitária dos corpos produz necessariamente uma maneira de viver entristecida. Desse modo, os homens estão muito mais vulneráveis ao ódio, desde que seja apontado para eles a causa dos seus males. Pode ser o vizinho, o chefe, o capitalista, o miserável, o governante do seu país – desde que lhes mostre uma causa para sua tristeza, observamos o ódio dos “homens de bem” tomar proporções que servem para afundar ainda mais a sua própria existência na lama do ressentimento. Mas é muito fácil mostrar, ou melhor, inventar uma causa para a tristeza de alguém: neste ponto, temos que reconhecer que os homens de poder são realmente mestres. A famigerada composição imagem e palavra serve para direcionar o ódio da massa que, reduzida à opinião, imagina lutar pela sua liberdade quando, de fato, presta um grande serviço à sua própria servidão. Basta associar a imagem de uma parede pichada ou de uma mesa quebrada com a palavra “vandalismo” para que o ódio seja direcionado. Basta associar a imagem da bandeira nacional com frases do tipo “O gigante acordou!” ou “Um só grito, uma só força!” para que a luta pela liberdade tenha algum sentido. Basta associar a imagem de um partido político, cujo símbolo é de cor vermelha, com a frase “Esta não é a cor da nossa bandeira!”, para que o inimigo seja identificado e odiado. Basta associar a imagem de soldados armados com a frase “Paz e proteção para todos!” para que essa “proteção” seja digna de ser desejada... Para quem sofre há necessidade de um inimigo para odiar, portanto, é fundamental que os homens de poder inventem inimigos, sempre através da composição imagem e palavra. Mas se eles são mestres na arte de direcionar o ódio (e também o amor) das massas de acordo com seus interesses perversos, são também facilmente desnudados por outra arte que eles estão longe de dominar: a arte do pensamento. A melhor arma contra a opinião é, sem dúvida, o pensamento, pois pensar “exige coragem para dizer as coisas que não se ousa dizer, para dizer de um jeito que habitualmente a sociedade não deseja saber”. Por meio do pensamento, percebemos que o discurso do poder é muito pobre, repetitivo, infantil. Tem sempre alguém para odiar, tem sempre alguém que irá nos salvar. Em suma: sem a arte do pensamento é muito mais fácil morder a terrível isca do poder.

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