Democracia

Quando escrevemos, há alguns anos atrás, sobre a destruição da democracia representativa, queríamos afirmar que o poder que passou para as mãos do povo foi um ato de prestidigitação do grande golpe burguês. Além disso, também escrevemos que a democracia era “pura distração, circo, passatempo, ferramenta de poder”, e apontamos para o seu inevitável esgotamento (“o próprio ressentido percebe cada vez mais que ela não pode ser levada a sério”). A inclusão democrática, como já dissemos, realiza a homogeneização de modo sutil e eficiente, caracterizando o que chamamos de fascismo (“a sociedade capitalista é um fascismo disfarçado de democracia”). “Liberdade, igualdade e fraternidade”: anseio totalitário, inclusão das “diferenças”, cheiro de fascismo no ar... Mas como queremos avançar a partir dessas ideias, pensamos na importância da invenção de uma democracia de fato, isto é, uma democracia ativa através de uma subversão política, onde os políticos estariam realmente a serviço das exigências mais urgentes da população. Para nós, já passou o tempo onde um governante dizia que não poderia atender às exigências da população porque, ao agir desse modo, perderia sua “autoridade”. Na democracia ativa, ao contrário, os políticos estão subordinados à vontade das pessoas para fazer o que a cidade ou o país quer que eles façam. Ora, sabemos que na democracia representativa os políticos são, como no teatro de fantoches, manipulados para atender os interesses da burguesia, e não os interesses da população. Se ocorre a subversão disso, o Estado deixa de ter a função primordial de favorecer ao máximo a acumulação de capital. No Brasil atual, a péssima saúde pública, o péssimo transporte público, e tantas outras coisas públicas que estão péssimas, são indissociáveis desta função primordial do Estado moderno. Portanto, se o poder de decisão passa, de fato, para as mãos do povo, a burguesia tem muito, mas muito mesmo o que temer. Então, qual é a sua reação? É a de sempre: tentar absorver tudo aquilo que ameaça a perpetuação do atual sistema econômico. A vontade de mudança do povo passa, então, a ser absorvida e dirigida sem oferecer nenhum risco ao modus operandi do capital. Não podemos estranhar se, um dia, criarem o “dia nacional da manifestação”, onde todo o Brasil poderá se manifestar sobre o que quiser, em locais específicos, em horário específico, com trajetos específicos – e isso já ocorre em tantas outras manifestações que foram completamente absorvidas. As petições online, como o Avaaz (cujo slogan já diz tudo: “O mundo em ação”), são alguns exemplos da tentativa de canalizar insatisfações das massas, com o que quer que seja, ao levar a “voz da sociedade civil para a política global”, o que dá uma aparência de participação política ativa. Aliás, não podemos estranhar se denominarem ações desse tipo de democracia ativa... Para nós, é evidente que o discurso “Por um mundo melhor!” é, essencialmente, um esforço para manter as coisas do jeito que estão. Segundo esse raciocínio humanista, a ordem é esta: “se existe miséria, destruição ambiental, guerras, políticos corruptos, então, temos que nos mexer, não podemos ficar de braços cruzados, temos que fazer algo para mudar isso!”. Noções vigentes como “sustentabilidade”, “consumo consciente”, entre outras, são sintomas disso. Este tipo de discurso não questiona, em nenhum momento, a perversidade do atual sistema econômico, nem em sonho questiona o modo de vida que o  mantém; ao contrário, muitos “que se mexem” dizem que ele deve ser preservado. Porém, algo que é muito curioso no capitalismo, é que ele somente se preserva com... mudanças. “Mãos à obra! Não fique parado! Petições online!...” Não temos dúvida que para a sobrevivência do capitalismo é indispensável que seja absorvido tudo o que ele mesmo ajuda a criar. O que aparentemente lhe opõe, seja a destruição ambiental, a miséria, a violência nas metrópoles, as manifestações nas ruas, passa a ser assunto de seu interesse para que possa perpetuar-se. Inclusive muitos intelectuais e movimentos de esquerda trabalham, tendo consciência ou não, a favor do movimento reacionário que, aparentemente, eles combatem (tem intelectual, cheio de ódio, que tenta persuadir as pessoas de que políticos corruptos devem ser enforcados, não colocando em questão, em nenhum momento, as causas reais que reproduzem políticos que agem assim). Ao que nos parece, diante desse cenário, as dificuldades para uma democracia ativa giram, portanto, em torno deste importante problema: qual é o sentido da mudança que pode ser feita? É uma mudança direcionada pelos interesses do poder do capital ou, ao contrário, é movida por um desejo genuíno que não quer o poder, que não quer ser representado, mas que deseja que aquele que esteja no poder se curve às exigências da população?

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